O vale da feitura da alma | excerto

Um descrição linda da experiência estética do nascimento e dos primórdios de constituição subjetiva, por Donald Meltzer no prefácio de ‘O Vale da feitura da alma – o modelo pós-kleiniano da mente e suas origens poéticas’ de Meg Harris Willians; ed. Blucher, 2019.

“Muito antes do nascimento, talvez já nas primeiras catorze semanas de gestação, pode-se dizer que o bebê humano manifesta comportamento e identifica as qualidades fundamentais do caráter da mãe. Ele não se relaciona apenas com objetos como o cordão umbilical, as membranas, a placenta e o irmão gêmeo no interior do útero, mas também com a voz da mãe e outras manifestações de seu estado mental e corporal. A vida mental, distinta do comportamento de adaptação pode ser vista como iniciada, o que implica a incipiência da experiência emocional, a formação simbólica primitiva das melodias e ritmos, bem como pensamentos oníricos. À medida que seu ambiente perde as amplas dimensões dos primeiros meses e se torna restritivo, o feto desenvolve um desejo de recuperar sua liberdade e uma expectativa de outro mundo do qual recebe pistas auditivas. Quando está suficientemente forte, luta para se libertar e tem êxito. Essa boa experiência pode ser maculada pela exaustão, pela aflição fetal; pode ser limitada por uma secção cesariana ou, se prematura, completamente desvirtuada em expulsão. Contudo, quando a experiência do nascimento é uma saída bem sucedida dessa restrição, o mundo exterior impinge o choro do pânico e do êxtase. O pânico antes da primeira respirada é compensado pela deliciosa expansão dos pulmões; a explosão de ruídos torna-se rapidamente modulada e deliciosamente musical; o arrepio de frio logo é controlado; o brilho cego assume formas maravilhosas. Mas os membros móveis foram puxados para baixo por uma centena de tirantes gravitacionais, e o senso de desamparo, de estar perdido no espaço infinito, mobiliza a expectativa de um salvador, e a boca busca por ele e o encontra. O pânico da fragmentação do bebê é restaurado pelos braços, pela voz e pelo cheiro da mãe, que lhe são familiares; e o vasto espaço recebe um ponto de origem geométrica pelo mamilo e pela boca. E quando os olhos começam a ver o rosto e o seio da mãe, e a carne começa a sentir a corrente de desejo, os olhos dela são o santuário em que o desejo apaixonado pela beleza deste novo mundo pode encontrar a reciprocidade que o torna tolerável.


Mas o seio tem suas manchas, suas estrias e suas rugas quando está esvaziado; e o rosto é uma paisagem sobre o qual passam as nuvens da ansiedade e em que as tempestades da dor e da indignação se formam, por vezes obscurecidas pelas névoas da desatenção. Da desconfiança engendrada por essas variações, o bebê precisa procurar sua própria defesa, a partir de uma rica variedade facilmente à mão. Ele pode internalizar esse objeto bom em sua total beleza, mas descobre que ele também assume sua forma desapontadora. Mas essa pode ser expelida sob a forma de fezes. Uma vez internalizado, o objeto belo pode oferecer o sono em seus braços e em seu interior. Ou o bebê pode reverter a geometria do espaço para que sua boca – não o mamilo da mãe – seja o ponto de origem em torno do qual revolve uma variedade de objetos como satélites, ordenado por seus gritos. Ou, como a mais duradoura das defesas, ele pode se dividir, distribuindo de maneira variada a atenção dos seus sentidos de modo que nenhum objeto possa exercer sozinho o total impacto estético da consensualidade.”

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